O Salão de Outono no campo das artes plásticas, de 1903 aos nossos dias.

CONFERÊNCIA DO PRESIDENTE DO SALON D’AUTOMNE DE PARIS DURANTE A JORNADA DE ARTE SOBRE:

ECA- USP / 28/09/2012
“SALÕES, BIENAIL, FEIRAS DE ARTE COMO MODELO DE EXPOSIÇÃO NO CENÁRIO CULTURAL”

O “Salão” é uma especificidade francesa desde sua criação em 1663 por Charles Le Brun, então o Primeiro Pintor do Rei, da Academia Real de Pintura e de Escultura, ancestral dos salões que vão perdurar até os dias de hoje, como o Salão de Outono.

 

« O Salão de Outono é como um jardim espiritual, cujas flores, misturadas, entre si, teriam a harmonia natural que a luz, o espaço e o ritmo secreto das coisas impõem à rua, ao céu em movimento, às planícies monótonas, ao mar, às multidões e às solidões. “Aqui, o “gênero” é um desconhecido; aqui é o lugar da ordem incerta da vida”.

Elie Faure, « Prefácio », Salão de Outono, Catálogo da exposição anual, outubro de 1905.

Um Salão de arte é como um território desconhecido. Falamos dele com uma curiosidade misturada à crença, com humildade e com entusiasmo, não sabendo muito o quê nos reserva sua geopolítica, sua história, sua cultura. Seu estudo rigoroso exige que sejam enunciadas as causas de sua origem, que se compreendam os seus contornos, os seus meandros, os seus pontos fortes e suas fraquezas. Melhor dizendo: discernir as suas diversidades, situar os desafios medindo suas relações reais com as correntes inovadoras do séc. XX e revelando o movimento profundo que o agita e que molda sua personalidade.

Estabelecer, afinal de contas, o que distingue o Salão de Outono dos outros Salões “históricos”, os que já apagaram as suas 100 velinhas – Artistas Franceses, Sociedade Nacional de Belas-Artes e Independentes. Sem pretender à exegese, nosso objetivo não é outro senão contribuir para as já numerosas tentativas feitas, com um esboço de evolução da Arte do séc. XX através de criadores que figuraram no Salão de Outono e que nos parecem dignos de interesse.

É um passo necessário para avaliar, com a maior objetividade possível, a importância do papel desempenhada por esta associação de artistas na história da arte do século passado. A tarefa não é tão fácil, pois são tantos os entrelaçamentos das expressões, dos gêneros e dos estilos, das correntes, dos avanços e dos recuos, dos contextos — que parece difícil que isso seja desmanchado, destrinchado. Frequentemente, o acaso, por si só, leva à dança.

As divisões cronológicas correntemente admitidas são quebradas sem apelo. A título de exemplo: as últimas obras primas de Renoir (As Grandes Banhistas, de 1919, que se vê no Museu d´Orsay) foram apresentadas quinze anos após a irrupção do fauvismo, treze anos após Picasso ter realizado as Demoiselles d´Avignon, oito anos depois da Maison Cubiste de André Mare e Duchamp-Villon no Salão de Outono de 1912… É assim com todos os movimentos inovadores– ainda flamejam, enquanto outros braseiros ainda estão sendo consumidos.

A grande maioria dos artistas adota uma maneira que vai aperfeiçoar ao longo de sua vida. Raros são aqueles que anunciam novas estéticas, que ousam, incessantemente, por em questão seu vocabulário plástico. No Salão de Outono, tomando ao acaso uma lista alfabética, encontraremos entre estes “pesquisadores permanentes”, os nomes de Bissière, Brancusi, Braque, Victor Brecheret, Chirico, Delaunay, Derain, Marcel Duchamp, Duchamp-Villon, Estève, Fautrier, Gleizes, Hayden, Herbin, Jawlensky, Kandinsky, Kupka, Le Corbusier, Léger, Maillol, Matisse, Picabia, Picasso, Renoir, Rosso, Rouault, Nicolas de Staël, Vasarely, Jacques Villon, Zadkine, Zao Wou-Ki…

Geralmente, o processo dito « evolutivo » da arte se embala (se move) sob o efeito das grandes mudanças que ajudam a situar as rupturas, na ocorrencia das duas guerras mundiais que fazem explodir dogmas e certezas, provocando mudanças radicais e abrindo novas perspectivas no campo plástico.

Sem dúvida alguma, a pintura sempre esteve no coração do debate artístico. A celebridade do Salão de Outono decorre, em grande parte, da exposição de 1905, pelo fato excepcional da primeira identificação dos artistas que trabalham a emancipação da cor (a utilização arbitrária da cor) e são reunidos na célebre “ gaiola das feras”.

Nesta medida, uma rápida olhada sobre a história do Salão de Outono, levando em conta apenas o domínio da pintura, de 1903 aos nossos dias, permite afirmar que a modernidade jamais saiu de suas paredes, de seu espaço. Simplesmente, a proporção e a antecipação dos avanços plásticos diferem segundo a época. Um sobrevoo sobre a totalidade dos Salões anuais evidencia imediatamente um profundo respeito pelo savoir-faire herdado da tradição e uma exigência moral de promoção das novas estéticas.

Como todos sabem, quando a novidade serpenteia ( se move de um lado a outro), à galope vem atrás a reação. Estes movimentos de fluxo e refluxo vão marcar o ritmo do Salão de Outono. Recusando sistematicamente fazer do passado tabua rasa, sempre se posicionou numa conduta de equilíbrio e diálogo entre os “modernos” e os “antigos”. Á despeito de uma tomada de posição em favor da modernidade muito marcante durante seus primeiros dez anos, anos “heroicos” em que foram identificados o Fauvismo (1905), o Cubismo (1907) e mesmo o Surrealismo (1920), ele permanece distante do culto exclusivista das vanguardas e de suas escorregadas dogmáticas. É uma postura que anuncia a singularidade do Salão de Outono. Sua preocupação primeira é promover o ecletismo, a diversidade da arte, dar-se conta de todas as suas vertentes.

De fato, as correntes artísticas mais diversas que se sucederam durante o século XX se entrebatem, se entrechocam, no Salão de Outono, numa alegre cacofonia: pós-impressionismo (ou neo-impressionismo, depois fauvismo), movimento nabi, simbolismo, cubismo, orfismo, raionismo, purismo, Escola de Paris, expressionismo em suas múltiplas variantes, futurismo, surrealismo, dadaísmo, pintura metafísica, abstração lírica, gestual e analítica, paisagismo abstrato, nova figuração e figuração narrativa, hiper-realismo, realidade poética, cinetismo, neo-realismo, artistas
“ testemunhas de seu tempo”, arte conceitual… todos eles estão lá!

Meteoros aparecem com frequencia, desaparecendo no ano seguinte. Quem saberia distinguir em meio ao grupo, Jawlensky em 1905, Beckmann e Boccioni em 1909, Chagall em 1912, Alexander Robinson em 1913, Mirò em 1920, Henri Laurens em 1922, Klee, Grosz e Penchstein em 1927, Larionov em 1932, Max Ernst em 1944, Severini em 1952 , Man Ray em 1954, Cueco em 1960, Riopelle em 1969, Ubac em 1972, Dali em 1977, Hundertwasser em 1975, Willy Ronis em 1990, Dado e Zao Wou Ki em 2003?

A enumeração destes nomes revela imediatamente uma das principais características do Salão de Outono. Belgas, alemães, espanhóis, italianos, ingleses, húngaros, russos, americanos, australianos, brasileiros, yugoslavos, chineses, japoneses… estes artistas vindos dos quatro cantos do mundo contribuíram para fazer da cena parisiense a capital das artes durante todo o Século XX e isto apesar da influencia considerável da Escola Americana, depois de 1950.

Ao falar do Salão de Outono, seria, entretanto, um grave erro somente citar pintores e gravadores e os escultores que dele participaram. A profusão de ramificações procedentes das artes decorativas, por outro lado, nos faz encontrar estes artistas em seções tais como “ o Livro”, “Arte religiosa” ou ainda “Décor teatral” ou “Urbanismo”. Outras disciplinas estão também em evidencia no Salão de Outono:

A partir de 1903, as “Artes Decorativas” terão destaque, com Ruhlmann, Majorelle, Printz, Leleu, Vuitton…

O mesmo acontece em relação à “Arquitetura”, filha querida do Salão de Outono. Lembremos que o primeiro Presidente, Frantz Jourdain, era arquiteto. Charles Plumet, Henri Sauvage, André Lurçat, Le Corbusier apresentaram no Salão seus trabalhos.

A Arte Religiosa, em 1922, com Maurice Denis, e a seção, daí em diante intitulada “Arte Sacra”, encontrou um sucesso considerável junto ao público.

Estimulado pelo amigo de Zola, o compositor de óperas realistas Alfred Bruneau, por Gabriel Fauré e Charles Koechlin a seção “ Música” teve também presença destacada , pois Debussy, Ravel, Roussel e o Grupo dos Seis ( Francis Poulenc, Darius Milhaud) e o compositor brasileiro Heitor Villa Lobos deram no Salão concertos memoráveis!…

A « seção Literária » não foi diferente e de Guillaume Apollinaire em 1907 à Yves Bonnefoy em 2007, passando por Paul Fort , Émile Verhaeren, André Gide, Louis Aragon — todos realizaram conferencias muito concorridas.
Sob a autoridade de Abel Gance, “o cinema”.
A Gravura juntou-se à pintura e à escultura, a partir de 1905, na ordem alfabética dos catálogos da exposição anual; com presenças como a de Kandinsky, Valloton e os Nabis.

Vivaz desde o começo, « a Fotografia » teve Cézanne entre seus primeiros expositores: em 1904, o mestre de Aix apresentou 27 fotografias! Depois, Lucien Clergue, Jacques-Henri Lartigue, David Hamilton, Willy Ronis e Jean-Loup Sieff.

Quando a História « maior » se encontra com a “menor”

Desde sua criação em 1903, além de sua edição de 1905 ( a do fauvismo), no decorrer da qual a mulher de Henri Matisse disse ter temido pela vida do marido na noite do vernissage, o Salão de |Outono conheceu muitos escândalos, nem sempre ligados ao conteúdo artístico descrito pela crítica.

Entre os escândalos estéticos, o de 1912 foi dos que mais repercutiram ! Colocada à entrada do Salão de Outono, a Maison cubiste ( Casa cubista) de André Mare e Duchamp-Villon foi considerada como uma provocação excessiva. Em tempos envenenados com os preparativos da guerra, a infestação da arte pelo Cubismo teve um teor acusativo: o estrangeiro, o “meteca”, e mais precisamente, o alemão.

« O Salão de Outono, explica Jean-José Frappa, no jornal Le Monde Ilustré de outubro de 1912 ( “ É preciso defender a arte francesa”), tornou-se há algum tempo uma obra de destruição de nossa arte nacional. No Salão de Outono, entre 709 expositores há 316 metecas. O Júri de pintura conta com 9 estrangeiros e 12 franceses” Os “metecas”! Eis o inimigo! Os deputados reacionários chegam a apresentar um moção à Assembléia Nacional para negar o Grand Palais ao Salão de Outono.

Foi preciso a coragem e o talento de tribuno do Deputado Marcel Sembat, amigo de Matisse e de Frantz Jourdain, para rejeitar esta moção que, finalmente, não foi votada. Mas o Salão de Outono, território de acolhida aos artistas vindos do Leste, teve seu clima aquecido! Neste ano de 1912 em que Kupka expõe suas pinturas abstratas, em que Giorgio De Chirico apresenta suas primeiras obras “metafísicas” e Modigliani mostra sua série de cariátides, ano em que o Cubismo vilipendiado comparece sob a forma de uma casa habitável na qual colaboram, de Fernand Léger a Marie Laurencin, — toda a vanguarda da época, — a atmosfera já pestilenta procura os primeiros “culpados” por uma guerra que se prepara. Os ódios se exasperam a ponto de o célebre Joséphin Péladan — que se fará chamar Saar Péladan — acreditar-se autorizado a escrever na Revista Hebdomadaire (Revista Semanal) – novembro de 1913 – que “ O Salão de Outono é um foyer de infecção mental” !

E houve a coragem (do Salão) defender os vocabulários novos.

– Como no Salão de 1933, quando seis meses depois da promulgação das leis raciais enunciadas por um certo Adolphe Hitler, o Salão publica no prefácio de seu catálogo “um apelo à ajuda” para acolher os artistas e intelectuais judeus alemães perseguidos…

-Mais próximo de nós, a participação de jovens artistas palestinos no Salão de Outono, durante o bombardeio de Gaza, em dezembro de 2008, fez correr muita tinta (muitos comentários). Mais que nunca, o Salão de Outono multiplica o intercambio entre artistas e, se faz presente, implanta-se um pouco em toda parte no mundo, numa firme posição anticolonial ou portadora de uma “boa palavra”. Isto se faz na forma de encontro, confrontando e respeitando as culturas de cada um. Animado por uma filosofia de alteridade, alguns destes encontros com o “outro” são sempre fecundos e trazem mútua compreensão, reconhecimento, laços duráveis.
Desta forma, desde 2004, realizamos a Bienal de Arte e Littératura do Cairo (a qual é mantida pelos poetas e artistas plásticos do Egito e, de modo geral, do mundo árabe), a Bienal do Salão de Outono na Galícia ( em Sarria e Santiago de Compostela) que prolonga os laços históricos com a Espanha ( Dali, Picasso, Mirò, Gargallo, Mateo Hernandez, etc.. todos expuseram no Salão de Outono!), a exposição
em Moscou se fez em consonância com a grande exposição russa do Salão de Outono de 1906 conduzida por Diaghilev e Larionov e que engendrou a grande aventura dos Ballets Russos!), no Japão, há dois meses, na China uma grande exposição itinerante partiu da Mandchuria até o Tibet; em Tel Aviv, em outubro próximo e, esperamos, graças aos esforços da artista Eliana Minillo e do ex diplomata francês no Brasil, Claude Martin Vaskou, em São Paulo, em 2013. Uma grande aproximação dos artistas do Nordeste e do Salão de Outono está igualmente em curso para 2014…

Voltando ao tema do Salão, quando de sua edição anual em Paris, na Av. Campos Elíseos, o Salão de Outono vem acolhendo delegações estrangeiras vindas um pouco de toda parte. Foi assim a conduzida por Eliana Minillo e Claude Martin Vaskou, uma pequena delegação de artistas brasileiros que nos fez lembrar a importância do escultor Victor Brecheret , de 1921 a 1928, e exibe suas obras há mais de três anos na mais bela avenida do mundo!..
A título de exemplo, o catálogo da edição de 2012 a ser apresentado no dia 24 de outubro próximo anuncia delegações chinesas, japonesas, brasileira, lituana, espanhola, israelenses e dos países do mundo árabe. Vê-se que a “Fraternidade das artes e dos artistas” não é só um slogan. Trata-se — retomando uma frase do poeta Aimé Césare.—de criar as condições para “uma atmosfera fraternal e artística entre todos os cantos do mundo!…
Da Dificuldade de ser após ter sido?
Os Desafios Contemporâneos

O Salão de Outono, hoje, está à margem da modernidade?
A imposição de uma arte se auto- proclamando “arte contemporânea” tende a fazer crer nisso, embora ela não seja datada de ontem, uma vez que sua referência suprema toma a forma do célebre urinol exposto em 1917 por Marcel Duchamp ( uma grande figura presente no setor de pintura do Salão de Outono!).
De fato, gozando na França de uma oficialidade parcial e fortemente criticável pelos poderes públicos, os promotores da arte contemporânea, do outro lado do Atlântico, organizam um hit parade de cinco ou seis artistas, em torno dos quais os milionários internacionais podem especular sem temor, em detrimento de milhares de outros, fazendo tábua rasa de tudo o que não seja isso, colocando em geral a pintura e as artes que se valem das mãos, no rank das velharias fora de moda.

Sociólogos e filósofos observaram os mecanismos que permitem designar os critérios da “modernidade”. Eles identificaram o papel circunscrito de cada um dos atores na perenidade de uma oficialidade que, sem jamais se dar nome, arbitra com uma temível ferocidade sobre quais expressões plásticas devem ser adotadas ou ignoradas.

O sociólogo Michel Clouscard ressaltou, sob a máscara da “modernidade”, o rito da tirania exercida pelo formalismo radical da arte, reivindicando, só para si, o status de contemporaneidade.

“Toda obra estética que quiser exprimir o referente e o significado será considerada como arte pompier, fora de moda, pobreza estética”.

Para o Salão de Outono, a liberdade é a única questão que vale. Emancipado da arte oficial como de todas as imposições, econômicas, estéticas, ideológicas ou religiosas, o jovem Salão centenário acredita que é esta liberdade de expressão que é preciso ter, custe o que custar, que é preciso defender e promover. Colocando a questão da qualidade das obras no centro de sua dinâmica, este princípio de liberdade se revela como fonte de diversidade, prova de independencia em relação a todas as escolas.

« Acima de nossos interesses, está o princípio da liberdade que o artista, mais que nenhum outro, deve defender”. “ É somente pela liberdade que cada um de nós pode esperar renovar-se a partir dos outros”. Assim se exprimia, em setembro de 1904, o pintor Eugène Carrière, Presidente de Honra do Salão de Outono. Tomando em conta esta questão de intensa atualidade, Carrière via à curta e longa distância. Do mesmo modo seu amigo, o arquiteto Frantz Jourdain – que desde o início, cuidou dos destinos do Salão de Outono e que entendia ser necessário “facilitar a evolução natural e indispensável da Arte, acolhendo o talento qualquer que fosse sua expressão e seu código”.

Desde sempre, esta exigência de liberdade continua sendo a estrela guia do Salão de Outono.

A « arte » contemporânea deve criar obras a partir da herança da modernidade do começo do séc. XX. Esta idade de ouro deve ser continuada, reinvestida e, sobretudo, reatualizada. Trata-se de interrogar a possibilidade de uma evolução fecunda da unidade teórico- prática moderna. È sobre esta herança que foi criado o Salão de Outono! Sustentado por alguns artistas militantes, eu, de minha parte, tento perpetuar o seu espírito.

Ampliando sua ação por via de numerosas parcerias no mundo, o Salão de Outono tem hoje os meios para tentar ser um contraponto à arte contemporânea internacional, mas para isto, ele precisa propor uma alternativa, um pensamento plástico exprimindo a reatualização da modernidade. Somente esta reflexão poderá frustrar o argumento maior da « arte » contemporânea que, para se auto- proclamar a única detentora do pensamento sobre arte, taxa de passadista toda meditação sobre a cultura européia.

A recusa da continuidade do pensamento artístico está no centro da política inaugurada há 50 anos, para colocar Nova York como centro mundial da arte. A ruptura entre a arte de hoje e a do passado solapa sem cessar os pontos de apoio (os pontos de reparo) da memória coletiva. Atualmente, este ponto de vista domina, sem concorrência. Ele se introduz de cima para baixo, discretamente e eficazmente. Ele trabalha para manter sua hegemonia, massificando no invisível os outros pontos de vista.

O pior defeito da mundialização– a uniformização das culturas— tocou o domínio da arte, estandardizando-a a partir de critérios impostos por Nova York, e que são os critérios da “arte” contemporânea. Ela reina sem compartilhar e, com o mesmo argumento dos pompiers do fim do séc. XIX mantenedores do Academismo e ferozes adversários do Impressionismo. — Se eles fossem obstáculos aos novos vocabulários pictóricos … a imposição do Sr. Bouguereau e de seus amigos que não cessavam de fuzilar Monet, Cézanne e seus companheiros, não pode ser comparada aos meios gigantescos que são postos em funcionamento hoje para impor uma “expressão plástica!, despida de historicidade.

Sem nenhuma dúvida, o primeiro Salão de Outono da América Latina colaborará para quebrar o consenso, armar o espírito para o reconhecimento dos desafios que advém das imposições da arte contemporânea sobre a liberdade de expressão e para se abrir a um pensamento artístico que se enraíze nas práticas e não nos conceitos. Convencidos da necessidade da “práxis” sobre o “conceito”, nossos representantes, a artista Eliana Minillo e o diplomata Claude Martin Vaskou não medirão esforços nesta batalha para fazer viver a arte em toda sua diversidade. Os artistas da América Latina não se equivocarão e reconhecerão rapidamente esta nova organização como portadora de esperança, uma manifestação que fará escutar “a voz dos sem voz”, de criadores freqüentemente ignorados, desprezados em nome de um “marketing estético” que age para ocupar sozinho a integralidade do espaço artístico. Que se diga em todos os ateliês onde artistas trabalham em silencio e solidão: com a criação do Salão de Outono da América latina, soa a hora da resistência.

Noel Coret

Escritor
Presidente do Salão de Outono
Diretor Artístico do Palácio dos Congressos de Paris-leste/Montreuil
Diretor da Fundação Artutti
Expert Internacional.

***A conclusão da palestra do Noël Coret foi tomada a partir de um e-mail que lhe enviou Martine Salzmann em 16 de setembro e, sinceramente, lamentamos que o seu nome tenha sido retirado, porque o autor queria ao contrario,valorizar um pensamento tão relevante como combativo. Para corrigir esse erro, nós publicamos todos os seus e-mail na integra e sem tradução, a fim de não se correr o risco da tradução não corresponder aquilo que foi realmente dito:

“Je désire apporter ma contribution sur la plan de la refondation d’une pensée plastique, en particulier une pensée du geste et de la matière. Depuis plus d’une trentaine d’année, je ne cesse de réfléchir et de créer des œuvres à partir de l’héritage de la modernité du début du XXe. Cet âge d’or doit être continué, réinvesti et surtout réactualisé. J’interroge la possibilité d’une évolution féconde de l’unité théorico-pratique moderne.
C’est sur cet héritage qu’a été créé le Salon d’Automne, et grâce à toi, il se perpétue en esprit.
En s’élargissant par de nombreux partenariats dans le monde, le Salon d’Automne a aujourd’hui les moyens de tenter un contrepoids à l’art contemporain international, mais pour cela, il doit proposer une alternative, une pensée plastique exprimant la réactualisation de la modernité. Seule cette réflexion pourra déjouer l’argument majeur de l’AC qui, pour s’autoproclamer seul détenteur de la pensée en art, taxe de passéisme toute méditation sur la culture européenne.
Refuser la continuité de la pensée artistique est au centre de la politique inaugurée il y a cinquante ans, pour placer New York comme centre mondial de l’art. La rupture entre l’art d’aujourd’hui et celui du passé sape sans relâche les repères de la mémoire collective. Actuellement ce point de vue domine, sans concurrence. Il s’immisce par le haut, discrètement et efficacement. Il travaille à maintenir son hégémonie, en massifiant dans l’invisible les autres points de vue.
Je vois le Salon d’Automne comme une occasion de briser ce consensus. Il faut d’une part armer l’esprit pour reconnaître les virus que transmet l’art contemporain, et d’autre part s’ouvrir sur une pensée artistique qui s’enracine dans la pratique et non dans le concept.”

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CONFÉRENCE DU PRÉSIDENT DU SALON D’AUTOMNE DE PARIS PRONONCÉE PENDANT LA JOURNÉE D’ART SALONS, BIENNALES ET FOIRES D’ART COMME MODÈLES D’EXPOSITION SUR LA SCÈNE CULTURELLE- (USP-ECA- SÃO PAULO- 28/09/2012)

Le Salon d’Automne dans le champ des arts plastiques, de 1903 a nos jours

Le « Salon » est une spécificité française depuis la création en 1663 par Charles Le Brun, alors Premier peintre du roi, de l’Académie Royale de Peinture et de Sculpture, ancêtre des Salons qui vont perdurer jusqu’à aujourd’hui comme le Salon d’Automne

« Le Salon d’Automne est comme un jardin spirituel dont toutes les fleurs mêlées auraient l’harmonie naturelle que la lumière, l’espace et le rythme secret des choses imposent à la rue, au ciel mouvant, aux plaines monotones, à la mer, aux foules et aux solitudes. Le « genre », ici, est inconnu, c’est l’ordre confus de la vie »

Elie Faure, « Préface », Salon d’Automne, Catalogue d’exposition annuelle, octobre 1905

Un Salon d’art est comme un territoire inconnu. On l’aborde avec une curiosité mêlée de crainte, d’humilité et d’excitation, ne sachant trop ce que nous réserve sa géopolitique, son histoire, sa culture. Son étude rigoureuse exige d’énoncer les causes de son origine, d’en comprendre les détours, les méandres, les points forts et les faiblesses. Au mieux, d’en saisir la diversité, d’en situer les enjeux en mesurant ses rapports réels avec les courants novateurs du XXe siècle et en révélant le mouvement profond qui l’agite et façonne sa personnalité.

Etablir, au bout du compte, ce qui distingue le Salon d’Automne des autres Salons « historiques », ceux qui ont soufflé leurs cent bougies, Artistes Français, Société Nationale des Beaux-Arts et Indépendants. Sans prétendre à l’exégèse, notre dessein n’est autre que d’ajouter aux tentatives déjà nombreuses, l’esquisse d’une évolution de l’art du XXe siècle au travers des créateurs ayant figuré au Salon d’Automne et qui nous semblent dignes d’intérêt.

Une démarche nécessaire pour évaluer au plus près de l’objectivité l’importance du rôle joué par cette association d’artistes dans l’histoire de l’art du siècle dernier. La tâche n’est pas aisée tant l’enchevêtrement des expressions, des genres et des styles, des courants, des avancées et des reculs, des contextes, semble difficile à démêler. Bien souvent, le hasard seul mène la danse.

Le tronçonnage chronologique couramment admis est réfuté sans appel. A titre d’exemple, les ultimes chefs d’oeuvre de Renoir (Les Grandes Baigneuses de 1919 visibles au Musée d’Orsay) sont présentés quinze ans après l’irruption des fauves, treize ans après que Picasso eut réalisé ses Demoiselles d’Avignon, huit ans après la Maison cubiste d’André Mare et Duchamp-Villon au Salon d’Automne de 1912… Il en est ainsi de tous les mouvements novateurs qui flambent quand d’autres brasiers se consument encore.

La grande majorité des artistes adoptent une manière qu’ils affinent leur vie durant. Rares sont ceux qui énoncent de nouvelles esthétiques, qui osent incessamment remettre en question leur vocabulaire plastique. Au Salon d’Automne, au hasard d’une liste alphabétique, on trouvera parmi ces « chercheurs permanents », les noms de Bissière, Brancusi, Braque, Victor Brecheret, Chirico, Delaunay, Derain, Marcel Duchamp, Duchamp-Villon, Estève, Fautrier, Gleizes, Hayden, Herbin, Jawlensky, Kandinsky, Kupka, Le Corbusier, Léger, Maillol, Matisse, Picabia, Picasso, Renoir, Rosso, Rouault, Nicolas de Staël, Vasarely, Jacques Villon, Zadkine, Zao Wou-Ki…

Généralement, le processus dit « évolutif » de l’art s’emballe sous l’effet des grands bouleversements qui aident à situer les ruptures, en l’occurrence les deux guerres mondiales qui font voler en éclats dogmes et certitudes, provoquant des changements radicaux et ouvrant de nouvelles perspectives dans le champ plastique.

Sans nul doute, la peinture a toujours été au cœur du débat artistique. La célébrité du Salon d’Automne repose en grande partie sur l’exposition de 1905, cru exceptionnel du fait de la toute première identification d’artistes oeuvrant à l’émancipation de la couleur (utilisation arbitraire de la couleur) et rassemblés dans la célèbre « Cage aux fauves ».

Pour autant, un rapide coup d’oeil sur l’historique du Salon d’Automne dans le seul domaine de la peinture de 1903 à nos jours permet d’affirmer que la modernité n’a jamais déserté ses cimaises. Simplement, proportion et anticipation des avancées plastiques diffèrent suivant l’époque. Le survol de l’intégralité des Salons annuels souligne tout à la fois un profond respect pour le savoir-faire hérité de la tradition et une exigence morale pour la promotion des nouvelles esthétiques.

Comme chacun sait, quand la nouveauté caracole, la réaction trotte non loin derrière. Ces mouvements de flux et de reflux vont rythmer l’existence du Salon d’Automne. Refusant systématiquement de faire du passé table rase, il s’est toujours situé dans une démarche d’équilibre et de dialogue entre les « modernes » et les « anciens ». En dépit d’un parti-pris en faveur de la modernité très marqué durant ses dix premières années, années « héroïques » où y furent identifiés le Fauvisme (1905), le Cubisme (1907) et même le Surréalisme (1920), il reste éloigné du culte exclusif des avant-gardes et de ses dérapages dogmatiques. Une posture qui énonce la singularité du Salon d’Automne. Son souci premier est bien de promouvoir l´ecletisme de l’art, de rendre compte de toutes ses composantes.

De fait, les courants artistiques les plus divers qui se sont chevauchés durant tout le XXe siècle se bousculent au Salon d’Automne dans une joyeuse cacophonie : postimpressionnisme (néo-impressinnisme puis fauvisme), mouvement nabi, symbolisme, cubisme, orphisme, rayonnisme, purisme, Ecole de Paris, expressionnisme aux multiples variantes, futurisme, surréalisme, dadaïsme, peinture métaphysique, abstraction lyrique, gestuelle et analytique, paysagisme abstrait, nouvelle figuration et figuration narrative, hyperréalisme, réalité poétique, cinétisme, néo-réalisme, artistes « Témoins de leur temps », art conceptuel… ils sont tous là !

Des météores apparaissent soudain, pour disparaître l’année suivante. Qui saura distinguer, cachés par le gros de la troupe, Jawlensky en 1905, Beckmann et Boccioni en 1909, Chagall en 1912, Alexander Robinson en 1913, Miro en 1920, Henri Laurens en 1922, Klee, Grosz et Pechstein en 1927, Larionov en 1932, Max Ernst en 1944, Severini en 1952, Man Ray en 1954, Cueco en 1960, Riopelle en 1969, Ubac en 1972, Dali en 1977, Hundertwasser en 1975, Willy Ronis en 1990, Dado et Zao Wou Ki en 2003 ?…

L’énumération de ces noms révèle instantanément l’une des principales caractéristiques du Salon d’Automne. Belges, allemands, espagnols, italiens, anglais, hongrois, russes, américains, australiens, brésiliens, yougoslaves, chinois, japonais…, ces artistes venus des quatre coins du monde ont contribué à faire de la scène parisienne la capitale des arts durant tout le XXe siècle, et ceci malgré l’influence considérable de l’école américaine après 1950.

Parlant du Salon d’Automne, ce serait pourtant une grave erreur de n’en citer que les imagiers, peintres et graveurs, et les sculpteurs. La profusion des branches issues des arts décoratifs fait d’ailleurs que l’on retrouve souvent ces artistes dans des sections telles « le Livre », « l’Art religieux » ou bien encore le « Décor théâtral » ou « l’Urbanisme ». Mais d’autres disciplines seront aussi à l’honneur au Salon d’Automne :
Dès 1903, les « Arts décoratifs » sont à l’honneur avec Ruhlmann, Majorelle, Printz, Leleu, Vuitton…

Il en est de même pour « l’Architecture », enfant chéri du Salon d’Automne. Rappelons que le premier président, Frantz Jourdain, était lui-même architecte. Charles Plumet, Henri Sauvage, André Lurçat, Le Corbusier y présenterent leurs travaux.
L’Art Religieux » en 1922. avec Maurice Denis et la section, désormais intitulée d´ « Art sacré » rencontra un succès considérable auprès du public.
Sous l’impulsion de l’ami de Zola, le compositeur d’opéras réalistes Alfred Bruneau, de Gabriel Fauré et Charles Koechlin, « la Musique » fit elle-aussi une entrée remarquée et remarquable puis ce furent Debussy, Ravel, Roussel et le Groupe des Six (Francis Poulenc, Darius Milhaud) et du compositeur brésilien Heitor Villa Lobos qui y donna des concerts mémorables !…

La « section Littéraire » ne fut pas en reste et de Guillaume Apollinaire en 1907 à Yves Bonnefoy en 2007, en passant par Paul Fort, Emile Verhaeren, André Gide, Louis Aragon — donnèrent del la voix au cours de conférences.
Sous l’autorité d’Abel Gance, « le Cinéma »
La gravure rejoignait la peinture et la sculpture dès1905 dans l’ordre alphabétique des catalogues d’exposition annuelle ; avec Kandinsky, Vallotton et les nabis

Vivace depuis le début, « la Photographie » compta Cézanne parmi ses premiers exposants : en 1904, le maître d’Aix présentait 27 photographies !Puis, Lucien Clergue
Jacques-Henri Lartigue, David Hamilton, Willy Ronis et Jean-Loup Sieff.

Quand la « grande » Histoire rencontre la « petite »….

Depuis sa création en 1903, outre son édition de 1905 (Fauvisme) au cours de laquelle l’épouse d’Henri Matisse avoua avoir craint pour la vie de son mari le soir du vernissage, le Salon d’Automne connut maints scandales pas toujours liés au contenu artistique décrié par la critique.

Parmi les scandales esthétiques, celui de 1912 fut des plus retentissants ! Placée à l’entrée du Salon d’Automne, la Maison cubiste d’André Mare et Duchamp-Villon fut considérée comme une provocation de trop. Dans ces temps empoisonnés par les préparatifs de guerre, l’infestation de l’art par le Cubisme avait une origine toute désignée : l’étranger, le « métèque », et plus précisément, l’allemand.

« Le Salon d’Automne, explique Jean-José Frappa dans Le Monde Illustré d’octobre 1912 (« Il faut défendre l’art français »), est devenu depuis quelques années une œuvre de destruction de notre art national. Au Salon d’Automne, sur 709 exposants, il y a 316 métèques. Le jury de peinture compte 9 étrangers pour 12 français.» Les « métèques » ! Voilà l’ennemi désigné ! Les députés réactionnaires vont jusqu’à déposer une motion à l’Assemblée Nationale pour interdire le Grand Palais au Salon d’Automne.

Il faudra le courage et le talent de tribun du député Marcel Sembat, ami de Matisse et de Frantz Jourdain, pour repousser cette motion qui, finalement, ne sera pas votée. Mais le Salon d’Automne, terre d’accueil des artistes venus de l’Est, avait eu chaud ! En cette année 1912 où Kupka expose ses peintures abstraites, où Giorgio De Chirico affiche ses premières œuvres « métaphysiques », où Modigliani aligne sa série des cariatides, où le cubisme vilipendé se décline sous la forme d’une maison habitable à laquelle collaborèrent, de Fernand Léger à Marie Laurencin, toute l’avant-garde de l’époque, l’atmosphère déjà pestilentielle cherche les premiers « coupables » d’une guerre qui se prépare. Les haines s’exaspèrent au point que le célèbre Joséphin Péladan –qui se faisait appeler le Saar Péladan- se croit autoriser d’écrire dans La Revue hebdomadaire (novembre 1913) que « Le Salon d’Automne est un foyer d’infection mentale » !

Et eut d’autres courages que celui de défendre les vocabulaires nouveaux.
-Comme au Salon de 1933, quand six mois après la promulgation des lois raciales énoncées par un certain Adolphe Hitler, il publie en préface de son catalogue un « appel à l’aide » pour accueillir les artistes et intellectuels juifs allemands persécutés. …

-Plus proche de nous, la participation de jeunes artistes palestiniens au Salon d’Automne durant le bombardement de Gaza en décembre 2008 a fait couler beaucoup d’encre… Plus que jamais, le Salon d’Automne multiplie les échanges entre artistes et s’implante un peu partout dans le monde, dans une démarche farouchement anticoloniale ou porteuse de « bonne parole » : il le fait toujours sur le mode de la rencontre, de la confrontation et du respect des cultures de chacun, animé d’une philosophie de l’altérité, certain que les rencontres avec « l’autre » sont toujours fécondes et porteuses de compréhension mutuelle, de reconnaissance, de liens durables.

Ainsi depuis 2004 nous avons mis en place la Biennale d’Art de et Littérature du Caire (laquelle est soutenue par les poètes et les plasticiens d’Egypte et plus généralement du monde arabe), la Biennale du Salon d’Automne en Galice (à Sarria et St Jacques de Compostelle) qui prolonge les liens historiques avec l’Espagne (Dali, Picasso, Miro, Gargallo, Mateo Hernandez, etc…ont tous exposés au Salon d’Automne !), l’exposition à Moscou en écho avec la grande exposition russe du Salon d’Automne de 1906 conduite par Diaghilev et Larionov, et qui engendra la grande aventure des Ballets Russes !), au Japon il y a deux mois, en Chine dans une grande exposition itinérante partie de Mandchourie jusqu’au Tibet, à Tel Aviv en octobre prochain et, nous l’espérons, grâce aux efforts déployés par la plasticienne de Sao Paulo, Eliana Minillo et l’ancien diplomate français au Brésil, Claude Martin Vaskou, à Sao Paulo en mai 2013. Par ailleurs ,un grand rassemblement entre artistes du Nordeste et du Salon d’Automne est également en cours de réalisation pour 2014…

En retour, lors de son édition annuelle à Paris sur les Champs Elysées, le Salon d’Automne accueille des délégations étrangères venues d’un peu partout. Ainsi, conduite par Eliana Minillo et Claude Martin Vaskou, une petite délégation d’artistes brésiliens nous rappelle l’importance du sculpteur Victor Brecheret de 1921 à 1928 et aligne ses œuvres depuis trois ans sur la plus belle avenue du monde !…
A titre d’exemple, le catalogue de l’édition de 2012 prévue le 24 octobre prochain prévoit des délégations chinoises, japonaises, brésiliennes, lithuaniennes, espagnoles, israéliennes et des pays du Monde arabe. On le voit, la « Fraternité des arts et des artistes » n’est pas un slogan : il s’agit bien pour reprendre une phrase du poète Aimé Césaire, de créer les conditions d’ « une aire fraternelle et artistique de tous les souffles du monde ».

De la difficulté d’être après avoir été ?
Les enjeux contemporains

Le Salon d’Automne aujourd’hui est-il en marge de la modernité ? Le diktat d’un art s’auto-proclamant « art contemporain » tend à la faire croire, quand bien même ce dernier ne date pas d’hier puisque sa référence suprême prend la forme du célèbre « bidet » exposé en 1917 par Marcel Duchamp (grande figure de la peinture au Salon d’Automne !). De fait, jouissant en France d’une officialité partiale et fortement critiquable de la part des pouvoirs publics, les promoteurs d’outre atlantique de l’art contemporain organisent le hit parade des cinq ou six artistes sur lesquels les milliardaires internationaux pourront spéculer sans crainte, au détriment de milliers d’autres, en faisant table rase de tout ce qui n’est pas lui, remisant la peinture et, plus généralement, les arts de la main, au rang des vieilleries démodées…

Sociologues et philosophes ont observé les mécanismes permettant de désigner les critères de la « modernité » ; ils ont identifié le rôle circonscrit de chacun des acteurs dans la pérennité d’une officialité qui, sans jamais se nommer, arbitre avec une redoutable férocité les expressions plastiques à retenir ou à ignorer.
Le sociologue Michel Clouscard a révélé, sous le masque de la « modernité », le rictus de la tyrannie exercée par le formalisme radical de l’art revendiquant pour lui-seul le statut de contemporanéité:
« Toute œuvre esthétique qui voudra exprimer le référent et le signifié sera considérée comme art pompier, démodée, pauvreté esthétique.»

Pour le Salon d’Automne, la liberté est la seule question qui vaille. Emancipé de l’art officiel comme de tous les diktats, économiques, esthétiques, idéologiques ou religieux, le jeune centenaire est fier de cette liberté d’expression qu’il s’agit, coûte que coûte, de défendre et de promouvoir. Plaçant la question de la qualité des œuvres au centre de sa dynamique, ce principe de liberté s’avère source de diversité, gage d’indépendance envers toutes les écoles.

« Au-dessus de nos intérêts il y a le principe de la liberté que l’artiste, plus que tout autre, doit défendre. C’est dans la liberté seulement que chacun de nous peut espérer se renouveler par les autres ». Ainsi s’exprimait en septembre 1904 le peintre Eugène Carrière, président d’honneur du Salon d’Automne. Il venait de rompre avec la Société Nationale des Beaux-Arts qui menaçait d’exclusion ceux qui auraient l’audace de participer au nouveau Salon. En tenant ces propos d’une brûlante actualité, Carrière voyait juste, et il voyait loin. Tout comme son ami l’architecte Frantz Jourdain qui veilla jusqu’au bout sur les destinées de l’Automne et qui entendait « faciliter l’évolution naturelle et indispensable de l’Art en accueillant le talent quelques fussent son expression et son code».

Depuis toujours, cette exigence de liberté demeure l’étoile du berger du Salon d’Automne.

L’ « art » contemporain doit créer des œuvres à partir de l’héritage de la modernité du début du XXe. Cet âge d’or doit être continué, réinvesti et surtout réactualisé. Il s’agit d’interroger la possibilité d’une évolution féconde de l’unité théorico-pratique moderne.
C’est sur cet héritage qu’a été créé le Salon d’Automne ! Epauler par quelques artistes militants, j’essaie pour ma part d’en perpétuer l’esprit.

En s’élargissant par de nombreux partenariats dans le monde, le Salon d’Automne a aujourd’hui les moyens de tenter un contrepoids à l’art contemporain international, mais pour cela, il doit proposer une alternative, une pensée plastique exprimant la réactualisation de la modernité. Seule cette réflexion pourra déjouer l’argument majeur de l’ « Art » contemporain qui, pour s’autoproclamer seul détenteur de la pensée en art,taxe de passéisme toute méditation sur la culture européenne.

Refuser la continuité de la pensée artistique est au centre de la politique inaugurée il y a cinquante ans, pour placer New York comme centre mondial de l’art. La rupture entre l’art d’aujourd’hui et celui du passé sape sans relâche les repères de la mémoire collective. Actuellement ce point de vue domine, sans concurrence. Il s’immisce par le haut, discrètement et efficacement. Il travaille à maintenir son hégémonie, en massifiant dans l’invisible les autres points de vue.

Le pire travers de la mondialisation, celui d’une uniformisation des cultures, a touché le domaine de l’art en passe d’être à son tour standardisé sur les critères imposés par New York et qui sont ceux de l’ « Art » contemporain… Il règne sans partage et à ce titre, les « pompiers » de la fin du XIXe siècle, tenants de l’Académisme et farouches adversaires de l’Impressionnisme, s’ils furent des obstacles aux nouveaux vocabulaires picturaux, étaient de la « roupie de sansonnet » -comptaient pour pas grand chose- à côté du bulldozer de la pensée esthétique unique contemporaine… Le diktat de Monsieur Bouguereau et de ses amis qui ne cessèrent de fusiller Monet, Cézanne et leurs amis, ne peut être comparé aux moyens gigantesques mis en oeuvre aujourd’hui pour imposer une « expression plastique » dénuée de toute historicité.

Sans nul doute, le 1ºSalão de Outono da America Latina participera à briser ce consensus, à armer l’esprit pour reconnaître les enjeux que transmet le diktat de l’art contemporain sur la liberté d’expression, et à s’ouvrir sur une pensée artistique qui s’enracine dans la pratique et non dans le concept. Convaincus de la nécessité de la « praxis » sur le « concept », nos représentants, la plasticienne Eliana Minillo et le diplomate Claude Martin Vaskou jetteront toutes leurs forces dans cette bataille pour faire VIVRE l’art dans toute sa diversité. Les artistes d’Amérique latine ne s’y tromperont pas et reconnaîtront rapidement cette nouvelle organisation comme porteuse d’espoir, une manifestation faisant entendre « la voix des sans voix » de créateurs souvent ignorés, bafoués, méprisés au nom d’un « marketing esthétique » agissant pour occuper seul l’intégralité de l’espace artistique. Qu’on se le dise dans tous les ateliers où des artistes travaillent dans le silence et la solitude : avec la création du Salon d’Automne d’Amérique Latine , l’heure de la résistance a sonné !

NOËL CORET
Ecrivain d’Art
Président du Salon d’Automne
Directeur Artistique du Palais des Congrès de Paris-Est/Montreuil
Directeur de la Fondation Artutti
Expert International

*** La conclusion de la conférence donnée par Noël Coret a été reprise en grande partie d’un email que Martine Salzmann lui a adressé le 16 septembre et nous regrettons sincèrement que son nom ait été supprimé, l’auteure ayant au-contraire souhaité valoriser l’auteur d’une pensée aussi pertinente que combattive. Afin de réparer cette erreur, nous publions l’intégralité de son courriel :
“Je désire apporter ma contribution sur la plan de la refondation d’une pensée plastique, en particulier une pensée du geste et de la matière. Depuis plus d’une trentaine d’année, je ne cesse de réfléchir et de créer des œuvres à partir de l’héritage de la modernité du début du XXe. Cet âge d’or doit être continué, réinvesti et surtout réactualisé. J’interroge la possibilité d’une évolution féconde de l’unité théorico-pratique moderne.
C’est sur cet héritage qu’a été créé le Salon d’Automne, et grâce à toi, il se perpétue en esprit.
En s’élargissant par de nombreux partenariats dans le monde, le Salon d’Automne a aujourd’hui les moyens de tenter un contrepoids à l’art contemporain international, mais pour cela, il doit proposer une alternative, une pensée plastique exprimant la réactualisation de la modernité. Seule cette réflexion pourra déjouer l’argument majeur de l’AC qui, pour s’autoproclamer seul détenteur de la pensée en art, taxe de passéisme toute méditation sur la culture européenne.
Refuser la continuité de la pensée artistique est au centre de la politique inaugurée il y a cinquante ans, pour placer New York comme centre mondial de l’art. La rupture entre l’art d’aujourd’hui et celui du passé sape sans relâche les repères de la mémoire collective. Actuellement ce point de vue domine, sans concurrence. Il s’immisce par le haut, discrètement et efficacement. Il travaille à maintenir son hégémonie, en massifiant dans l’invisible les autres points de vue.
Je vois le Salon d’Automne comme une occasion de briser ce consensus. Il faut d’une part armer l’esprit pour reconnaître les virus que transmet l’art contemporain, et d’autre part s’ouvrir sur une pensée artistique qui s’enracine dans la pratique et non dans le concept.”

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